quinta-feira, 23 de julho de 2015

Pleno de vida agora

Walt Whitman, século XIX.
Pleno de vida agora, consistente, visível,
Eu, quarenta anos vividos, no ano oitenta e três anos dos Estados,
Ao homem que viva daqui a um século, ou dentro de quantos
                                                                          [séculos for,
A ti, que ainda não nasceste, dirijo este canto.
Quando leias isto, eu, que agora sou visível, terei me tornado invisível,
Enquanto tu serás consistente e visível, e darás realidade a meus poemas, voltando-te para mim,
Imaginando como seria bom se eu pudesse estar contigo e ser teu
                                                                                   [camarada:
Faz de conta que eu estou contigo. (E não o duvides muito, porque eu estou aí nesse momento.) 


WHITMAN, Walt. "Pleno de vida agora". In: GULLAR, Ferreira (trad. e org.). O prazer do poema. Uma antologia pessoal. Rio de Janeiro: Edições de Janeiro, 2014.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Foi bonita a festa, pá!















Eu existo.
Hei de morrer.



Escrevo um poema
para anunciar que existo 
na existência dele.
Firo com lâmina
o papel que absorve
a lágrima.
Corto com a palavra escrita
a carne viva do papel. 

Enquanto isso, 
outras lágrimas caem na folha, 
lágrima verso, lágrima sangue,

Eis a palavra.
Eu existo.
Hei de morrer.

EIS UM POEMA!


(...)deixarei de existir...

Deixarei de pensar, enfim!

Continuo vivendo
e contemplando a Lua Cheia. 
E neste entretempo: 
penso, suspiro e escrevo. 

Hoje não quero morrer. 

Dou forma,
com letra, 
ao meu instante. 

Serei imortal!

(Enquanto este 
instante escrito
estiver cunhado
nos olhos
d'alguém.)


Súbito, 

numa folha em branco,
eis que surge com a tinta, 
letra a letra, este cálice 
em que deposito 
minhas 
Cálice de mim. 


Enquanto escrevo,
bebo essa dor libidinal
que transborda
no 
papel, 
morre 
na 
letra 
renasce 
na
palavra.


EIS UM POEMA!

Noite literária, 10 de julho de 2015. Fotos: Karina Belle.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Noite literária



As Noites Literárias estão de volta no reduto boêmio dos amantes das palavras! Nesta sexta-feira (10), farei uma performance com três poemas do livro Amando Palavras. Participarão, também, desta noite poética, Rossana Spacek, Tiago Abreu e o Quinteto Real Brasil.


segunda-feira, 22 de junho de 2015

Cântico Negro



O Sarau Subsolo acontece mensalmente na Livraria Armazém, reduto boêmio na cidade de Uberlândia (MG), desde 2013. Produzido pela Agência Cultural & Editora Subsolo, reúne poetas e escritores interp​retando seus poemas e textos, com perfor​mances e aprese​ntações cênicas e musicais.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Flores amarelas miúdas

Nesta quinta-feira (18), o querido amigo, Ricardo Abdala, autor dos gritos e sussurros na orelha de Amando Palavras, irá lançar seu primeiro livro, na Casa da Cultura de Uberlândia, a partir das 19:30, Flores Amarelas Miúdas. Trata-se de uma "literatura fantástica, prosa poética, gramáticas aritméticas, mitologias, histórias sobre canções e poemas, este livro, engloba um universo daqueles que o corpo parece preparado para atravessar com nossos sonhos."

Será uma noite regada à vinho, choro, samba, amizade, prosa e poesia...

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Roncos e rangidos de uma máquina-corpo-escrita


“O que leva a palavra a falar é o desejo.”
Maria Gabriela Llansol


Silenciosamente, máquinas roncam e rangem. Lápis e canetas riscam papéis universitários. Passos de transeuntes acadêmicos marcam compassos cotidianos. Uma festa urge num centro de convivência de uma universidade. Máquinas. Entre os corpos cotidianos, música e cervejas, dois performers cortam fluxos, transitam conectados por coleiras e, emudecidos por um mistério, oferecem seus corpos com canetas aos festeiros. Trata-se da performance Sirva-se, de Alline Santana, Gusmão Ferrer/Caio Lion e Juliana Bom-Tempo, realizada por esta e por Fernando Borma, na noite de 15 de maio de 2015, na Universidade Federal de Uberlândia – UFU.

Corpos dançando, corpos andando, corpos fumando, corpos bebendo. Corpos cotidianos. De repente, se olham, comentam, riem, ignoram. Dois performers, vestidos de preto, acorrentados por coleiras, caminham lentamente ao encontro dos corpos, ao encontro do desconhecido, ao encontro de escrita. Para Marguerite Duras (1994), escrever não é uma possibilidade, ninguém pode escrever, “mas se escreve. É preciso dizer: não se pode. E se escreve. É o desconhecido que trazemos conosco; escrever, é isto que se alcança. Isto ou nada” (p. 47).

Os artistas deslizam em um espaço estriado, formatado, configurado. Em alguns momentos, há impasses entre eles quanto aonde ir, mas para caminharem, precisam encontrar alguma composição; em silêncio, se comunicam e seguem seus trajetos. Ziguezagueando pessoas e olhares, os corpos em performance oferecem, gentilmente, canetas às pessoas. A ausência da fala incomoda a muitos, que insistem aflitos por uma explicação pontual e concisa quanto a este modo de estar num espaço ordinário. Sugerem algumas possibilidades: “É trote!”, “Não, isso é teatro”; enquanto outras: “Não escrevo, se eu não souber para o que é isso!”. Algumas olham com desprezo, outras, tímidas e (im)potentes, pedem ajuda aos amigos. Muitas escrevem. Palavras e desenhos, desejos e conflitos. Cada qual, rabisca com tinta, com raiva, com medo, com vergonha, com calma, com pressa, a superfície-pele daqueles corpos-papéis, que se oferecem à sujeição do desejo do outro. Domínio do reconhecível, da tentativa de fixar um sentido para o que acontece ali, que pesa sobre pele e pescoço.

Pesa uma escrita do corpo no corpo. Uma escrita que ronca e range. Para a escritora portuguesa, Maria Gabriela Llansol (2009, p. 28):

A palavra é uma escrita do corpo, é uma contabilidade do corpo (...)
A palavra é a escrita dos meus desejos e conflitos.

*Quando falo, corro; a fala não é uma língua. Através dela desoculto o código íntimo do meu corpo àqueles que estão disponíveis e que podem fazê-lo.

A fala é voo e uma violação do pensamento, do outro*
A palavra é como uma praça comum para onde dão todas as portas do corpo – pode através da articulação reunir várias sensações.


Corpo, coleira, corrente e caneta desocultam seu código íntimo, desfazem a forma do visível, do dito, do óbvio, do pronto; fazem a palavra falar. Há uma desterritorialização1 dos elementos, dos signos e dos funcionamentos, que inaugura uma nova terra, uma terra para além da palavra, uma terra sem praça e sem portas, um terra desértica, onde um povo que está disponível o habitará. Um povo nômade. Um povo porvir2.

As máquinas roncam e rangem, estão em funcionamento. Máquina-corpo, máquina- escrita, máquina-caneta. As relações engendradas pelas imagens em performance3 provocam panes e curtos-circuitos das máquinas que atuam de modo estruturante, cotidiano; criam um problema. Esse corte dos fluxos ordinários opera acoplamentos maquínicos que configuram uma nova máquina e um novo sistema: máquina-corpo-escrita. Logo, maquinicamente, outros cortes, conexões e acoplamentos farão surgir novas composições e outras potências; isto é, uma produção de máquinas; engendrando princípios e processos de individuações ao infinito, fazendo surgir uma Máquina de Arte4.

Máquinas institucionais, máquinas sociais, máquinas políticas, máquinas estéticas, roncando e rangendo. Silenciosamente, aprisionado, o homem contemporâneo transita sobre uma falsa liberdade5. Em zonas de risco, um povo se coloca disponível para desocultar o código íntimo do mundo, das coisas e da vida; de um desconhecido que trazemos conosco; para fazer falar a liberdade. Os cortes de fluxo e os acoplamentos maquínicos provocam um agenciamento social, um nomadismo, configuram novas máquinas abertas à outras rupturas e conexões. Esse agenciamento tem como forma de expressão uma máquina de guerra, edificada sobre linhas de fuga, em um espaço liso, deserto, que faz falar um povo do futuro. Sua função não é a guerra, mas sabotar, desertar.

Definimos a “máquina de guerra” como um agenciamento linear construído sobre linhas de fuga. Nesse sentido, a máquina de guerra não tem, de forma alguma, a guerra como objeto; tem como objeto um espaço muito especial, espaço liso, que ela compõe, ocupa e propaga. O nomadismo é precisamente essa combinação máquina de guerra-espaço liso. (DELEUZE, 2013, p. 50).

Essa máquina é o próprio desejo, que leva a palavra a se enunciar; suas armas são os afetos que atravessam os corpos. “É tempo de parar” – decidem, silenciosamente, os performers, após duas horas. Em movimentos (des)percebidos, eles param frente a frente, olhos nos olhos. Miram-se mudos, demoradamente. Corpos abarrotados de escritos, signos, linhas. Máquina-corpo-escrita. Corpos-máquina de palavras, onde o desejo funciona e faz funcionar, “onde o silêncio mora”6. Lentamente, Juliana move seu braço em direção ao pescoço. Com os dedos, puxa a língua de couro vermelho presa sob a fivela da coleira, desfaz a conexão que a mantinha presa e remove completamente aquele objeto que lhe envolvia e subjugava. Fernando executa o mesmo movimento e, ao final, leem, um para o outro, as palavras e desenhos que aos olhos lhes saltam.

Amor arte gay love is all you need linda quero maria de luta feliz!!! lindo amor música educa paz deus somos nós eu mamo saudade viva as drogas caio corpo tô afim me liga... O que se vê nos corpos não é um texto conciso, estruturado, modal, pronto; é mais que um todo completo, antes, se compõe de partes (palavras, desenhos, linhas, desejos, conflitos, signos), que somadas e contabilizadas tendem ao infinito.

Fernando Borma










REFERÊNCIAS:
Conceito criado por Deleuze e Guattari (2011).
Discussão presente no livro Imagem-Tempo-Cinema 2 (DELEUZE, 2005)
Termo criado por Juliana Bom-Tempo (2014).
Termo criado por Anne Sauvagnargues (2013) ao pensar a arte como processo de individuação que produz também um meio em uma ecologia das imagens, em uma Máquina de Arte.
Referência ao trabalho da performer brasileira Berna Reale, Americano (2013), em exposição na 56a Bienal de Arte de Veneza, intitulada All the World’s Futures, que deu início em maio deste ano e ficará aberta até 22 novembro de 2015. A bienal pretende refletir e discutir as demandas contemporâneas, inquietude do nosso tempo, marcadas por crises econômicas, catástrofes naturais, fome, etc. Para tanto, conta com 136 artistas de 53 nacionalidades.
Verso da música A Terceira Margem do Rio – composição: Caetano Veloso e Milton Nascimento.

BOM-TEMPO, Juliana Soares. Por uma clínica poética: experimentações em risco nas imagens em performance. Campinas, SP: [s.n.], 2015. Tese de doutorado.
DELEUZE, Gilles. A imagem-tempo: cinema 2. São Paulo: Brasiliense, 2005.
DELEUZE, Gilles. Conversações. Trad. Peter Pál Pelbart. São Paulo: Editora 34, 2013.
DELEUZE, Gilles.; GUATTARI, Félix. Mil Platôs vol. 1 – Capitalismo e esquizofrenia 2. Trad. Ana Lúcia de Oliveira, Aurélio Guerra Neto, Célia Pinto Costa. São Paulo: Editora 34, 2011.
DURAS, Marguerite. Escrever. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.
LLANSOL, Maria Gabriela. Uma data em cada mão – O livro de horas I (Lovaina e Jodoigne, 1972- 1977). BARRENTO, J. e SANTOS, Maria Etelvina (Org). Lisboa: Assírio & Alvim, 2009.

SAUVAGNARGUES, Anne. Écologie des images et machines d’art. En: Pourparlers: Deleuze entre art et philosophie. Reims, França: Épure; Édition de Presses Universiteire de Reims, 2013a, p. 169 – 186.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Véio

Véio é como conhecem o escultor sergipano, da cidade de Nossa Senhora da Glória, Cícero Alves dos Santos. Patrocinado pela grife italiana Marni, Véio expõe seu trabalho, paralelamente à 56ª edição da Bienal de Arte de Veneza, em Punta Della Dogana, antiga abadia do século XII, à beira do Grande Canal.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Synthase

video

From time to time night
From time to time light
From time to time cloudy
From time to time gaudy

From time to time love
From time to time life
From time to time treachery
From time to time cemetery

From time to time pain
From time to time rain
From time to time wellness
From time to time dryness

From time to time,
in the dialectic of life,
my love is rhyme
in this synthase berhyme.


BORMA, F. Amando palavras. Uberlândia: Assis Editora, 2014. p. 23

Voz: Franciele Laura
Violão: Ricardo Abdala
Imagens em performance: Juliana Bom-Tempo

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Amor com palavras

O Blog da Wil esteve presente no coquetel de lançamento de Amando palavras e preparou este video com os registros da noite de 11 de abril.

Obrigado, Wilsa.