agenda (17) amor (66) angústia (72) arte (22) artigos (24) cinema (29) citação (59) dica de sexta (67) discos (35) eu escrevi (82) fotografia (28) (33) história (1) literatura (20) morte (23) músicas (54) para pensar (96) poesia (152) ser humano (138) superação (36) vida (151) videos (120)

sábado, 22 de março de 2014

Café com Proust



“É tempo de parar, parece que está diminuindo a virtude da bebida.” 
(PROUST, 2006, p.71)

Levou aos lábios a xícara branca com a bebida negra e quente que cheirava mato molhado. E assim que aquele líquido amargo lhe tocou a boca, se atentou ao que lhe acontecia de novo. Acendeu um cigarro. Lembrou-se de Proust. Eternizou-se naquele instante. O tempo parou. Perdeu-se a virtude da bebida. Acendeu outro cigarro. Foi escrever.

Fernando Martins

segunda-feira, 17 de março de 2014

Geografia

Sei que você não falha em perceber:
todas as terras se parecem.
Todo o relevo, montanhas, planícies,
depressões,
construções,
falam àquela mesma dor
àquele mesmo sopro
que desde sempre conhecemos.
Pelas veias azuis dos rios corremos olhares
que devoram
anseiam
sentido qualquer
que preceda a morte;
com essa delicadeza extraterrena
que tiramos sabe-se lá de onde
contornamos, com a ponta do dedo,
a veia, o rio -
todos deságuam no mesmo lugar:
O oceano, a mão
aberta ou fechada que beijamos.
Há os monumentos, construções cheias de si, os grandes prédios:
as claríssimas coisas que nos observam.
A essas nos entregamos, em desaviso,
em pura ousadia, talvez,
como quem se abandona nos braços de
uma esfinge.
E não nos arrependemos mesmo
quando somos devorados.
Já as pequenas florestas, mesmos os bosques e campos
tememos:
A elas você e eu vamos apenas de mãos dadas,
Olhando para os lados,
como se a qualquer momento um terrível castigo
sobre nós fosse abater-se.
Mas no fim, amor, não nego o quanto pertenço
a essas clareiras, penumbras e blecautes.
Nem que me escondo aqui quando
nada mais me interessa:
tudo parece gravitar para este centro.
Há a terra enfim,
de norte a sul,
à qual tanto nos ligamos
que depois de um tempo nossos cabelos
se misturam às raízes das árvores.
Então nos lembramos das visões que um dia tivemos:
E não queremos nada além desse abandono feliz.






Jéssica Costa é estudante de Letras, 22 anos, nascida em BH. Mora em Uberlândia há seis meses e é professora. Publica seus poemas no blog Jardins Suspensos.

http://www.jardinssuspensoss.wordpress.com

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Um labrador e dois buldogues

Da sacada do meu apartamento, observo uma mulher de cabelos brancos e volumosos. Ela mora numa casa grande ao lado do meu prédio. Parece-me que vive sozinha. Sozinha, não. Mora com três cães: um labrador e dois buldogues.

Desconfio que ela também me observa. Mas, não faço a mínima ideia do que pode pensar sobre mim. 

Imagino que ela seja uma senhora aposentada, que, outrora, fora uma excelente professora de ensino médio, sem ter filhos e que se separou do marido para viver suas mágoas e ser independente. É o que penso.

Apresento-me à ela sem máscaras, enquanto lhe observo. Assim como ela, também, à mim se apresenta e observa. Ainda não soube o que ela pensa.

sábado, 11 de janeiro de 2014

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Um café quente e amargo

Escrever. 
Não posso. 
Ninguém pode. 
É preciso dizer: não se pode. 
E se escreve. 
É o desconhecido que trazemos conosco; escrever, é isto que se alcança. Isto ou nada. 
(Marguerite Duras) 

Ultimo dia de 2013. Escrever? Escrevo. Falo. Dou forma com letras àquilo que penso. Escrever: o que me importa é apenas isso. Se alguém me lerá (pois eu sou a escrita), pouco me importa. Também não me preocupo mais com as verdades das palavras que escrevo. Com o poeta compreendi, no exercício de escrever, que noventa por cento do que escrevo é invenção. Só dez por cento é mentira.

O café quente e amargo, descansando sobre a mesa em que escrevo, contem a essência daquilo que sinto. Ali, em repouso, ele se mantem inalterável em sua forma e composição, mas gradativamente perde a virtude da bebida em sua conexão com a temperatura ambiente. Assim, eu me sinto. E é só. Não preciso explicar essa comparação metafórica.

Os fogos agora rugem e desfazem a harmonia dos cães domésticos. Eu chego à minha casa. Lugar ao qual pertenço. À minha solidão. Hoje, ultimo dia de 2013. Precisava disfarçar um pouco a solidão e abraçar minha família. E, assim, o fiz. Lá, na casa dos meus avós, vasculhei um álbum bem antigo de família e selecionei algumas fotografias para colocar em um porta-retratos. Para colocar em um porta-retratos. Ali, eu vi meus dias. Aqueles que já passaram e aqueles que nunca vivi. Vivi este ano como qualquer transeunte meditabundo que se esquece de prestar atenção nas ruas. Mas, que no ultimo dia do ano, ao voltar para casa, consegue observar pássaros voando em bandos, ao que me pareciam, assustados. Partiam a procura de paz, em algum lugar possível. Da mesma forma, neste ano, pessoas também passaram por mim. Vieram. Pousaram. Ficaram. Voaram. Partiram.

Preciso parar por aqui. O café já cumpriu seu sentido de existir e, agora, dentro de mim, fazendo parte de mim, me inquieta e me censura: é preciso deixar o lápis e o papel e ir em busca do que me espera. O que me espera eu não sei.

Aos pássaros que alçaram voo rumo à outros céus: “Obrigado! Foi belo ouvir seus cantos. E belo vê-los voar.” E aos que pousaram e continuam aqui: “Obrigado por me permitirem observá-los cantar.” Sou grato e compreendo que mesmo me sentido, as vezes, desesperadamente, loucamente miserável, atormentado pela aflição(...), estar vivo é uma coisa grandiosa.

sábado, 30 de novembro de 2013

Christopher Guzmán e o Rio de Janeiro

Christopher Guzmán, artista mexicano, registrou com fotografia e ilustrações surrealistas as impressões que teve da cidade maravilhosa, para a qual veio morar. Vale a pena compartilhar sua sensibilidade e criatividade aqui.










segunda-feira, 25 de novembro de 2013

os olhos da minha mãe

Hoje é o dia de uma pessoa muito especial para mim e blá blá blá... À minha progenitora: Feliz Aniversário!



você carrega no olhar
a dor de amar incondicionalmente
e de deixar seu ninhal alçar voo

você carrega no olhar
a alegria de observar
duas pessoas
existindo

você carrega no olhar
a certeza de ser quem sempre foi:
mulher, amor,
mãe.

Fernando Martins


quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Movies Hispter Kits

A artista cinéfila francesa Alizée Lafon criou uma série de cartazes intitulada Movies Hispter Kits, nos quais ilustra objetos relevantes ao "universo hispter" extraídos de alguns filmes.








domingo, 17 de novembro de 2013


um pedaço de terra
uma sombra de mangueira
um cigarro de palha
o marasmo da paisagem
e o sentimento de ser
o mundo

09/11/2013
Fernando Martins

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

pelo dia dos meus anos

O que tenho a dizer é isto: GRACIAS A LA VIDA. Muito obrigado aos amigos que me enviaram mensagens carinhosas ou que me apertaram com os braços pessoalmente pelo dia dos meus anos. São pequenas atitudes das pessoas e até mesmo do espetáculo diário da natureza que, diante da tragicidade que é viver, eu tomo parte nas palavras da Agatha Christie quando ela diz: "Gosto de viver. Algumas vezes me sinto muito, desesperadamente, loucamente miserável, atormentada pela aflição, mas mesmo diante disso tudo eu compreendo que estar viva é uma coisa graciosa."

Beijos e abraços carinhosos,
Fernando Martins

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Paisagem

Observo a paisagem. 
Caminho no verde, 
me assento na rocha 
e meus ouvidos 
empresto à tempestade. 
Momentos como este, há, 
em que me considero 
ser um milagre criado 
por esta natureza 
que me observa também. 

Fernando Martins
03/11/2013